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Anedonia ou desejo de Comunhão com Deus?


Onde estou...

Eu quero chorar.
Quero abandonar-me e deixar-me descansar. Quero fundir-me com o Tudo de Tudo. Quero caminhar com a sensação que o faço porque quero intimamente fazê-lo e não porque devo ou porque é, para os outros, correcto.
Quero adormecer sem fim, deixar-me pertencer ao Infinito...
Quero sintonizar as minhas ondas com as ondas da Vida, com o Deus que me ama e me procura e me ampara.

Sinto-o aqui, comigo, ao meu lado;
Sei que não me falha;
Sinto-O a olhar para mim com compaixão, "Sofres, pequenina, mas sabes como Viver em plenitude. Assim que o quiseres, estaremos Juntos em Vida. Eu espero por ti. Eu sou o Tudo de Tudo, que te dará antes de pedires. Eu Sou Aquele que É."
E ainda assim, não consigo abrir um livro de oração, ecoar um cântico de meditação, imprimir uma proposta de oração, ou ir aparecer com irmãos na fé e na luta que tanto prezo.

Sabem, caros amigos, isto, do ponto de vista da Psiquiatria chama-se Anedonia [Anedonia é a perda da capacidade de sentir prazer, próprio dos estados gravemente depressivos. Sem a discriminação de reforço positivo é esperado que vários comportamentos saudáveis entrem em extinção e o indivíduo passe a ser controlado principalmente por reforço negativo (evitar sofrimento) e por punição. Uma pessoa com anedonia em geral dificilmente adere ao processo terapêutico por isso é importante a participação da rede social de apoio caso exista. Wikipédia.]

Mas não é o que eu vivo.
Já estando tratada e tendo uma vida psicologicamente saudável, sei que não é o meu caso (neste preciso momento).
Como médica, fica curioso analisar esta situação.

Olho para mim, de fora, e consigo ver que não tenho sintomas de depressão. Consigo ver que aquilo que me "falta" é a Ordenação dos Afectos e dos Sentires, tão bem praticada nos Exercícios Espirituais.

Como já vos disse, foi um período muito transtornante e muito difícil pelo qual passei em Novembro. Por um lado o cair do mundo com a nota do Exame da Especialidade, e por outro a morte do meu querido animal de estimação (com 3 anos de vida conjunta e partilhada).

Fiquei perplexa. 
Fiquei suspensa no tempo. 
Deixei de rezar profundo-superficialmente o meu estudo ou o meu sucesso, mas não fiz o luto destas mortes. Para ter boa nota e não ficar desequilibrada, não encorpei estas emoções de tristeza, de sofrimento, de luto. Não pensei sobre elas, não as rezei. Não procurei Deus por entre elas e ainda não o quero fazer. Opto pela falsa segurança da ignorância. Não desço à cave das emoções


Rezar a minha vida é todos os dias sentar-me e conseguir ter a coragem e o discernimento de ir ver momento a momento aquilo que foi feito e me incomodou. Descobrir porque é que me incomodou, e o que posso fazer da próxima vez, ou desde já, quanto a esse assunto. Quanto mais caminhas para a mestria espiritual, para a santidade, melhor e com menos esforço fazes isso. E começa a ser natural fazê-lo. Conheceres-te ao ponto de pedires perdão ou agradecer cada momento da tua existência e relação com os outros, em Vida, sabendo o que sentes e como Deus te faz sentir em relação a isso.

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